
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Infante D. Henrique” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras –
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
ASTROLOGIA: SATURNO
Na heráldica, o timbre é a insígnia colocada sobre o brasão ou escudo de armas, distinguindo os diferentes graus de nobreza. Como sugere Agostinho da Silva, secundado por Nuno Hipólito, aqui o timbre também pode ser interpretado num sentido mais literal e musical de tom, energia, vibração dominante.
O grifo é um animal mitológico com corpo de leão e com cabeça e asas de águia. Era um símbolo muito utilizado pelos magos e sacerdotes da religião Zoroastra, no Médio Oriente, e representava a união das sabedorias terrestres com as celestes.
Os grifos lembram características físicas dos abutres, apesar de estarem associados moralmente a virtudes. O grifo era também o timbre no brasão do Infante D. Henrique, como acontecia muitas vezes na heráldica europeia.
Com a transição para o quinto e último agrupamento de «Brasão», Fernando Pessoa brinda-nos com uma descrição primorosa e sintética do planeta clássico que faltava: Saturno. É o último, o mais longínquo e mais poderoso astro. Aquele que materializa o império. São múltiplas as descrições saturninas: «Em seu trono entre o brilho das esferas», «manto de noite e solidão», «as mortas eras», «único imperador».
Este sincretismo com a figura do Infante D. Henrique é belíssimo e muito ajustado, por ser o grande arquiteto e concretizador da epopeia dos Descobrimentos, na sua figura negra, misteriosa e solitária. Era, na verdade, o grão-mestre da Ordem de Cristo, a herdeira da Ordem dos Templários.
Na Astrologia, Saturno é o planeta imperial, austero, ambicioso, o grande general. Embora também lhe seja atribuída a outra faceta de grande carrasco, o astro dos castigos e das provações. É o senhor da morte.
O Infante de Sagres, que sempre é retratado com as suas vestes negras, morreu solteiro e nunca teve mulher nem filhos, algo que se adequa perfeitamente ao tradicional significado de Saturno, um astro de solidão, luto, velhice e infertilidade.
E, então, qual a ligação à Cabeça do Grifo? É que precisamente este animal mitológico representará o Dragão do horóscopo, ou seja, o eixo dos nodos lunares.
Desde a Antiguidade, o Nodo Lunar Norte é designado como Caput Draconis, a Cabeça do Dragão, enquanto o Nodo Lunar Sul é chamado de Cauda Draconis ou Cauda do Dragão.
A Cabeça do Dragão representa experiências mais alegres, expansivas, de sorte e de evolução. A Cauda do Dragão terá uma natureza de esforço, de contração ou de hábito enraizado. Na Astrologia moderna considera-se que constituem respetivamente experiências evolutivas e involutivas da Alma.
A razão pela qual Pessoa chama a Saturno – O Infante D. Henrique – a Cabeça do Grifo será porque, no seu próprio horóscopo, Saturno está conjunto à Cabeça do Dragão e no signo de Leão. O Signo oposto, onde está a Cauda do Dragão, é o Signo de Aquário onde está também projetada a constelação Aquila, da Águia.
E, portanto, o «Grifo» – animal meio Leão, meio Águia – é a analogia perfeita com o seu eixo dos nodos lunares em Leão-Aquário, com o nodo norte em conjunção a Saturno, ainda na Casa 9 das viagens, mas já sobre o Meio-do-Céu, das realizações.
Outro indicador muito interessante é que este é o poema mais curto de «Brasão», maioritariamente em verso heroico, com apenas 5 versos. O infante era também o quinto filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre. E no mapa de Pessoa, Saturno está a 4º30 de Leão que é o quinto grau e no quinto Signo.
Vemos assim que os dois astros desafiantes desta série, que são Marte e Saturno, têm coincidentemente o mesmo número de versos do que o número de graus onde estão no horóscopo do poeta.
Este poema é o terceiro a contar do fim, e Saturno é também o regente da Casa 3 de Pessoa, em Capricórnio, sendo possível assim estabelecer mais um elo com o seu mapa, como acontece mais evidentemente sempre que o poeta descreve um planeta.
Deste modo, vemos que neste curto poema, estão retratados: o Saturno Universal, o imperador negro; o Saturno Nacional, que é o Infante D. Henrique; o e o Saturno pessoal, conjunto à Cabeça do Dragão em Leão.
Na descrição dos anteriores astros, o critério foi o mesmo. Sendo arquétipos mais perto do núcleo são também mais centrais na definição de identidade e daí, muito provavelmente, a importância do sincretismo triplo estar mais consolidado nestes poemas.
Este poema retrata uma visão muito semelhante à do famoso retrato pintado por José Malhoa, de 1906, onde o Infante se senta contemplativo, com os pés sobre os rochedos. É através da estratégia do Infante que é criado um mundo novo na sequência das navegações marítimas, pondo fim às «mortas eras» que corresponderam à idade das trevas medieval.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
Compre já o seu livro AQUI
João Medeiros
Lisboa, 8 de Dezembro de 2021
Para saber mais sobre VÍDEOS: AQUI
Para saber mais sobre os nossos CURSOS: AQUI
Para saber mais sobre CONSULTAS: AQUI
Receba todas as nossas novidades, subscrevendo a nossa NEWSLETTER: AQUI





