
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Horizonte” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade.
ASTROLOGIA: TOURO
Este poema é bastante longo, com 18 versos. Pode ser considerado uma obra de arte astrológica, por si, de uma classe invulgar, em nossa opinião.
Na análise mais óbvia, vemos um abundante léxico de natureza associado ao segundo signo do Zodíaco, o Touro. Este é um arquétipo de Terra, modalidade Fixa, e representa o florescer da Primavera.
A deusa da beleza e da arte, Vénus, é o seu regente. Assim, Pessoa adota um estilo muito descritivo, natural e sensorial, repetindo vocabulário: «coral», «arvoredos», «Abria em flor», «árvores», «abre-se a terra em sons e cores», «aves», «flores», «praia», «fonte», «beijos».
Todavia, neste poema há mais significados importantes integrados: a linha do horizonte e a tormenta.
A linha do horizonte que é referida por três vezes «Linha severa da longínqua costa», «de longe a abstrata linha», «linha fria do horizonte» corresponderá à linha do Descendente no horóscopo, o início da Casa 7, associada aos relacionamentos.
É a linha «fria» porque é aquela onde o sol se põe, por corresponder ao oeste. No mapa de Pessoa essa linha cai no signo de Touro.
Portanto, aqui se entende que o poeta estará a descrever-se também a si próprio e algo muito específico do seu mapa natal, justamente onde está o respetivo Signo, não nos deixando dúvidas quanto à intenção de cruzar as diversas informações.
O «Longe» tão repetido referir-se-á ao ponto mais distante do Eu – o Ascendente – a uma distância de 180 graus do mesmo. Esse ponto é precisamente a linha do Descendente que representa o Outro. Fica, assim, reiteradamente qualificada a indicação desse fator horoscópico.
As «tormentas passadas e o mistério», «os medos», «a noite e a cerração» podem referir o Signo oposto (Escorpião), a Casa 8 (onde está localizada Vénus, no mapa de Pessoa) ou ainda o poema anterior, O Infante.
As razões para as duas primeiras hipóteses são relativamente evidentes. Tanto a Casa 8 como Escorpião têm afinidade com os ditos significados mais nebulosos, noturnos e misteriosos. Em ambos os casos, verifica-se concordância com o tema natal de Pessoa.
Para além disso, o «abrir em flor» pode ser uma metáfora para a sexualidade feminina, assim como «os sensíveis / Movimentos da ‘sperança e da vontade» podem ser uma descrição do ato amoroso entre homem e mulher, ficando completo com os «beijos» quando «a nau se aproxima». Assim, aqui serão veiculados o erotismo e o sexo, temas de Vénus.
Contudo, a última hipótese é igualmente viável porque o «mar anterior» pode ser o poema anterior que, estando associado ao Infante (D. Henrique) poderá referir também o seu significado astrológico, em «Brasão»: o planeta Saturno.
Este é igualmente um astro de «tormentas», «medos», «noite» e «cerração» e está em ângulo de quadratura (a Tormenta, como veremos no poema da secção «O Encoberto») com o eixo do Ascendente-Descendente de Pessoa, a «linha do horizonte».
Por outras palavras, o poeta diz que, ultrapassando a quadratura e o lado difícil deste astro, as «flores» estarão lá, mas que para ele isso é um «sonho». Recordamos que não teve uma vida amorosa particularmente feliz, o mesmo se depreendendo da sua vida sexual.
Uma última referência às «aves» que são uma componente do Elemento Ar, do signo de Gémeos onde está Vénus no horóscopo pessoano. E, finalmente, o «Sul sidério» que é o Sul sideral, ou seja, das estrelas, sendo Touro um signo tradicionalmente referente a coordenadas do Sul.
Desta maneira, vemos que Fernando Pessoa faz em Horizonte uma sincretização de vários conceitos conseguindo descrever, na aparência, a descoberta de terras férteis pelos navegadores mas, na profundidade, a temática do amor, dos relacionamentos e da sexualidade.
Em certo sentido, também revela uma das características dos Portugueses enquanto navegadores e exploradores, que foi a miscigenação das raças.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 2 de Dezembro de 2021
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