
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Fernando Pessoa” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
‘Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?
Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
ASTROLOGIA: SIGNOS CARDINAIS
O terceiro poema de «Os Avisos» não tem nome, por ser escrito na primeira pessoa do singular, assumindo o próprio poeta Fernando Pessoa ser o terceiro profeta do Quinto Império. Mesmo sofrendo e abdicando de toda a vida pessoal para esse fim.
Pela sequência vista anteriormente, esperaríamos que este poema se focasse nos Signos Cardinais, os de início de Estação, o que se confirma plenamente logo nos primeiros versos.
O poeta diz que escreve o seu «livro à beira mágoa» e que tem os «olhos quentes de água» de «Só te sentir e te pensar», clamando o «Senhor». Esta descrição será uma interpretação direta do planeta que pensa e escreve – Mercúrio – no signo da Água quente de Verão, a época de ida à beira-mar, assim unindo o sentir e o pensar. Ou seja, Pessoa faz novamente o elo com o seu horóscopo descrevendo Mercúrio, que está no Signo de Caranguejo e na Casa 9, também considerada profética.
Os restantes Signos Cardinais estarão mais levemente representados, mas ainda assim poderemos reconhecer a impaciência e apelo direto de Carneiro com o apelo: «Quando é o Rei? Quando é a Hora?». Este é um signo de rapidez e de impulsividade, sendo mesmo conotado como rude, por vezes.
Todo o tom inquisitivo é, aliás, característico destes Signos de início de Estação, que têm como propriedades a clareza, a definição e a ação. São rápidos e claros nos seus objetivos, querendo respostas e resultados rapidamente.
O Signo da Balança, que é o único de Ar aqui, estará também representado pelos «Novos Céus» e pelo «sopro incerto» sendo, entre os quatro Signos desta modalidade, aquele que é considerado mais indeciso.
O Signo de Capricórnio terá uma associação menos evidente, mas parece-nos que estará representado pela «Nova Terra» e pelo «despertar do mal que existo». Isto, dado que é governado por um planeta tradicionalmente classificado como nefasto e por ser o primeiro Signo da Triplicidade de Terra, pela sequência natural das Modalidades.
Todas as restantes referências do poema são mais emocionais, em particular o «Fazer minha esperança amor», lembrando novamente Mercúrio em Caranguejo de Pessoa. Este astro já tinha sido associado aos poemas anteriores de D. Dinis e de Diogo Cão, Padrão, que representavam respetivamente Mercúrio e o Signo Gémeos nacionais.
O poema é um apelo sentido de Pessoa, com enorme carga dramática, vestindo ele a pele mais de profeta e de intérprete do que o outro papel: o de D. Sebastião literário, isto é, o Supra-Camões, que é também um Encoberto.
A tensão aqui apresentada poderá, também, ser fruto da colocação de Mercúrio no mapa do poeta, sob quadratura com Marte e Urano, também num Signo Cardinal. O poema tem 5 estrofes, o que é interessante visto ser o número do Quinto Império e das 5 Quinas, trecho onde Pessoa mais especificamente se assumiu como mártir.
Como vimos anteriormente no poema A Última Nau, o poeta reconhece que não conseguiu identificar astrologicamente qual o ano ou época de regresso efetivo de D. Sebastião, ficando algo angustiado com isso. Como vimos e comentaremos, à luz da teoria do Zodíaco de Portugal essa época terá possivelmente o clímax entre 2024 e 2038, tendo começado a notar-se a partir de 2016.
Mas se Bandarra e António Vieira representam Portugal e Brasil, respetivamente, Fernando Pessoa representa aqui o resto do mundo, a «Nova Terra», sendo o profeta com expressão mais universal, direta e esclarecida, considerando o trio. E logo, também, o mais associado aos Signos Cardinais, cuja típica impaciência de não poderem esperar mais é claramente demonstrada neste poema.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 10 de Dezembro de 2021
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