
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “O Infante” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
ASTROLOGIA: CARNEIRO
O primeiro poema de «Mar Português» evoca, desde início, a vontade criadora de Deus, um atributo do Elemento Fogo: «Deus quer», «Deus quis». Está construindo novamente em verso decassilábico heroico e com 12 versos, o número astrológico principal, tal como muitos poemas da secção anterior, especificamente os atribuídos às 12 Casas.
Faz sentido, por isso, que este poema esteja atribuído ao primeiro Signo do Zodíaco, Carneiro, que é precisamente um arquétipo de inícios poderosos, de força de vontade, de luta, e do fogo impulsionador.
A expressão «a obra nasce» ressoa com esta visão criadora e de nascimento que o Signo de Carneiro encerra, bem como o imperativo «falta cumprir-se Portugal!», que soa a grito guerreiro e a um movimento vigoroso.
Porém, a interpretação astrológica do poema é um pouco mais complexa do que a simples associação do mesmo com Carneiro já que, como vimos, Mensagem é uma tripeça, focando vertentes astrológicas universais, nacionais e pessoais. Se assim não fosse, este poema poderia perfeitamente referir palavras como ‘sangue’, ‘espadas’, ‘vitória’, o que não acontece. Pelo contrário, vemos referência à união.
Como diz o astrólogo Vitorino de Sousa «espuma remete para o mito de Afrodite que nasceu da espuma do mar» sendo Afrodite grega a Vénus romana. Mais adianta que «Fernando Pessoa, que era um conhecedor profundo da linguagem astrológica, considerou a forma mais salutar de interpretar o Zodíaco, avaliando cada signo/regente como complementar do seu oposto.»
Pensamos que esta consideração está correta, mas mais se completa ainda considerarmos que o poeta tece descrições baseadas no seu próprio horóscopo.
Carneiro é regido pelo planeta Marte que, no seu caso, está na Casa 12 (do «Mar») em Balança (o signo oposto), em harmonia com a respetiva regente, Vénus (em ângulo de trígono).
Por isso, de forma velada, podemos ler este poema com o nascimento ou ação de Vénus unindo através do Mar a «terra inteira». A vontade de Carneiro existe, sim, mas para servir Vénus, que a partir de uma ilha (atributo da Casa 12) une o mundo.
Este poema lembra também o de D. Fernando, Infante de Portugal, que também «Deus sagrou», a única vez anterior em que esta descrição foi usada em Mensagem. Não por acaso, já que este poema se refere ao planeta Marte, regente de Carneiro, o que comanda a vida do próprio Fernando Pessoa.
Por isso, o título de O Infante deste poema referir-se-á a mais do que um infante, para além de significar que o império dos mares foi apenas uma etapa de infância, por comparação com o propósito maior, o Quinto Império.
Também é verdade que apenas por outra vez o poeta usou a palavra «inteira» quando se referiu à «inteira» força de D. Afonso Henriques, que como vimos representará o Signo de Carneiro, na Casa 7 nacional. Foi precisamente através deste primeiro rei que Deus «nos deu sinal», no milagre de Ourique.
Assim, é legítimo que este «Infante» seja também D. Afonso I, o primeiro «português» oficial e a quem a providência divina deu o sinal maior, e que foi secundado pelo Infante D. Henrique na empreitada das navegações.
A derradeira ligação ao horóscopo de Pessoa confirma-se por mais um detalhe – o uso repetido do verbo «cumprir» no fim do poema.
O único outro poema onde isto acontece em todo o livro é o de D. Duarte, em «Brasão», nos últimos dois versos: «Cumpri contra o Destino o meu dever/ Inutilmente? Não, porque o cumpri.» Como vimos, esse poema é o que designará a Casa 6, do serviço e do dever, onde Pessoa tem precisamente o seu Signo de Carneiro.
Atendendo ao elevado nível de detalhe de Mensagem, como constatámos, estes paralelos terão sido propositados para criar um elo entre os diversos poemas.
Existe, pois, a suspeita que se confirma ao longo da secção «Mar Português», em nossa opinião, de que o poeta interpreta aqui não apenas um Zodíaco nacional, mas também a configuração do seu mapa celeste, envolvendo Signo-Casa-Regentes, como fazem os astrólogos.
Mas esta conclusão só emerge depois de termos decifrado «Brasão» e de vermos as prováveis ligações entre ambas as secções.
A designação de O Infante pode ter, por isso, uma significância mais lata do que indicar o Infante D. Henrique e a Ínclita Geração, mas abranger o início da nação nas duas primeiras dinastias, numa construção astrológica de uma riqueza assinalável.
Nesse sentido, podemos dizer que «Deus quer» também se refere à vontade guerreira de D. Afonso Henriques, «o homem sonha», à visão estratégica do Infante D. Henrique e a «obra nasce», será igualmente o próprio trabalho literário e espiritual de Pessoa.
Deste modo, ficam sincretizados três tempos da nação: a conquista militar, as navegações e a espiritualidade.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 22 de Dezembro de 2021
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