
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “D. Filipa Lencastre” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal!
ASTROLOGIA: VÉNUS
O poema D. Filipa de Lencastre é o décimo de «Brasão», o oitavo e último de «Os Castelos». Tem uma métrica de redondilha maior, as 7 sílabas poéticas, com 8 versos em duas quadras. É a segunda referência feminina na obra, depois de D. Teresa, a Lua.
Atendendo ao significado e à lógica construída, faz sentido que este poema descreva o astro que se segue a Mercúrio na ordem clássica: Vénus. Várias são as expressões referentes ao género feminino: «seio», «concebia», «maternos», «Princesa», «Santo Gral», «ventre», «Madrinha».
Na simbologia esotérica, o Santo Gral é também uma metáfora para os órgãos sexuais femininos, que formam um cálice. E o planeta Vénus é a «Princesa» do panteão astrológico. Santo Gral é também uma designação que se atribui em certas correntes ocultistas ao Sangue Real, para se designar uma suposta descendência secreta de Cristo através da dinastia Merovíngia.
É indubitável que a prole gerada por Filipa de Lencastre e D. João I tem um lugar de destaque na História de Portugal. Chamou-se Ínclita Geração e foi constituída por 8 infantes (D. Branca, D. Afonso, D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. Isabel, D. João e D. Fernando), tal como 8 é um dos números de Vénus.
Fernando Pessoa coloca este poema numa posição muito especial. Sendo o oitavo da série, podemos relacioná-lo com a sua própria Vénus na Casa 8, havendo aqui o elo com o seu horóscopo, sendo Gémeos um signo de inteligência, de «génios» e de irmãos. Como referido previamente, Vénus forma também um pentagrama nos céus ao longo de oito anos.
Diz ainda que é o Castelo «Sétimo / (II)», uma vez que nalgumas bandeiras portuguesas antigas aparecem oito castelos em vez de sete. Esta atribuição pode ter sido propositada, já que é o astro regente natural da Casa 7, dos relacionamentos, e da sua Casa 7, em específico.
Por outro lado, é o primeiro a contar do fim da série, tendo os versos o mesmo número de sílabas métricas que o poema do Sol-Ulisses, heptassilábicos, em ressonância com os sete planetas. Estes dois factos apontam para que o poeta dê a mesma importância a Vénus e ao Sol, enquanto arquétipos identitários da nação.
Porém, há mais factos que colocam este astro numa categoria superior no horóscopo simbólico de Portugal, para Pessoa. É «a Madrinha de Portugal» e também para Camões foi a Deusa protetora dos portugueses, nas navegações.
Sendo D. Filipa a mãe da geração que iniciou as navegações, em particular através do seu filho, o Infante D. Henrique. Vénus é o astro que está no centro de «Brasão», pois é o décimo poema de dezanove poemas, como explicado no início, sendo este último um número hexagonal centrado. Em outras palavras, é o coração de «Brasão», em Mensagem.
Juntando a outras peças que o poeta nos vai dando ao longo da obra – como a regência da Casa 1, a Europa de «olhos gregos lembrando» – é muito provável que Pessoa considerasse Vénus como o planeta de Portugal, o que melhor representa a sua missão e identidade.
É um princípio de amor, de integração de opostos, de simpatia e de harmonia. Não por acaso, é mencionado de novo o «rosto», tal como no poema de introdução de Mensagem. É o planeta das cinco pontas no céu e, logicamente, o que melhor sintetiza o propósito do Quinto Império, o Amor Universal entre povos.
Existe também uma identificação secundária com a Casa 10, que é tradicionalmente governante da Mãe, por ser o décimo poema, ainda que este não seja o seu significado prioritário.
Poderíamos ainda estabelecer uma conexão com Nossa Senhora, a protetora do Reino desde D. Afonso Henriques, e reforçada no início de cada Dinastia. Particularmente, com D. João IV foi-lhe atribuída a coroa real após a recuperação da independência.
Curiosamente, o milagre de Fátima dá-se também numa combinação planetária onde Vénus é particularmente forte e num mês regido por este astro.
Desta maneira, podemos suspeitar que o poema dedicado a Filipa de Lencastre – que teve um casamento afortunado para o país – está moderadamente associado à Casa 8 de Pessoa, à Casa 1 do país, à Casa 10 Universal mas, essencialmente, a Vénus nos seus diversos sentidos.
Na Astrologia clássica, é a regente dos Signos de Touro e de Balança, sendo também a regente por Exaltação do Signo de Peixes. Estes três Signos são arquétipos fortes de Portugal.
Assim, Pessoa conclui o segmento de «Os Castelos» tendo descrito os luminares – Sol e Lua – e os planetas internos – Mercúrio e Vénus. Serão estes arquétipos fundamentais do país.
Para além disso, intercalou-os com descrições de Casas importantes fazendo incursões mais leves por outras Casas universais e pelo próprio horóscopo do poeta, em específico, quando se refere aos planetas. Descreve as Casas de Fogo (5 e 9) ou Casas Angulares (4 e 7), que têm sempre papéis ativos e destacados em qualquer carta astrológica.
Em simultâneo e subtilmente, descreve o seu Sol em Gémeos na Casa 8, a sua Lua em Leão na Casa 5, o seu Mercúrio em Caranguejo na Casa 9 e a sua Vénus em Gémeos na Casa 8, pelo meio, aludindo possivelmente ao horóscopo de Caeiro quando retrata a Casa 9.
Por estes argumentos, podemos dizer que a série «Os Castelos» é bem mais complexa que a anterior, mas de uma riqueza hermenêutica imensa.
O autor prepara-nos, assim, para o conjunto seguinte, «As Quinas», que abre outros ângulos interpretativos mais profundos e cruzados, em especial, no que se refere ao papel do próprio poeta na epopeia lusa.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 15 de Dezembro de 2021
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