
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Fernão de Magalhães” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam na morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto –
Cingi-lo, dos homens, o primeiro –,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
ASTROLOGIA: ESCORPIÃO
Este é o oitavo poema de «Mar Português», com 24 versos no total. É um dos mais significativos e completos no contexto da obra, nos seus vários sentidos.
Tem no título apenas o nome de um navegador – Fernão de Magalhães – sem qualquer texto auxiliar, característica única nesta série de 12 poemas. Este é o poema dedicado a Escorpião, o oitavo Signo e o Ascendente de Fernando Pessoa que, de novo, integra múltiplos sentidos.
Se o poema D. Fernando, Infante de Portugal (Marte) é um autorretrato, este segue o mesmo padrão e Fernão será também o próprio poeta, além do navegador, como se percebe pelo conhecimento concreto do seu horóscopo.
Para começar, toda a atmosfera do poema gira à volta da morte, dos mortos e de um ritual fúnebre e macabro, com a devida semântica escorpiónica: «sombras disformes e descompostas», «clarões negros»; «escuridão», «sepulto», «morto», «mudos montes». Para além dos segredos e da própria violação serem temas deste Signo de Água, em especial, a sexualidade intensa.
Mas o ritual é uma dança que «sacode a terra inteira» e que «a noite aterra». Recordamos que a expressão «terra inteira» foi usada no primeiro poema de «Mar Português», o Signo de Carneiro. E que a dança é também um atributo do Signo de Balança.
Portanto, estaremos a rondar no mesmo centro de gravidade, no mapa de Pessoa. Isto é, em torno da posição de um planeta que é muito relevante. Como até aqui, o poeta tem interpretado o Signo em combinação com a posição do seu planeta regente, neste poema acontece o mesmo.
Escorpião é governado por Marte que, como dissemos inúmeras vezes, está na Casa 12 e no Signo de Balança. Esta configuração também se adequa à dança na «solidão» e às «naus no resto do fim do espaço», por exemplo.
Mas a confirmação é mais óbvia e absoluta quando o poema descreve explicitamente um episódio da mitologia grega: «São os Titãs, os filhos da Terra/Que dançam na morte do marinheiro/ Que quis cingir o materno vulto–/ Cingi-lo, dos homens, o primeiro –, (…)/ Que até ausente soube cercar/ A terra inteira com seu abraço./ Violou a Terra.»
Fernando Pessoa menciona explicitamente o Deus Urano, que foi o primeiro a violar a Terra-Gaia tendo como filhos os Titãs. Após a sua morte e castração, ficou espalhado no céu, governando-o e, portanto, cercando a «terra inteira com seu abraço».
Como o planeta Urano faz conjunção a Marte no horóscopo de Pessoa, sendo este tão importante na delineação do mesmo, o poeta dedicou-lhe esta linda passagem.
Desta forma, «o marinheiro/ Que quis cingir o materno vulto», o «morto» que «ainda comanda a armada» e que cerca a terra «com seu abraço» será, em simultâneo e em tripeça: o planeta Urano, na sua génese mitológica, tal como descrito pelo poeta grego Hesíodo, em Teogonia; o navegador Fernão de Magalhães, ao serviço do rei de Espanha, Carlos V, tendo sido morto por nativos filipinos antes de completar a circum-navegação; e o próprio poeta Fernando Pessoa, morto precocemente e incompreendido, mas fazendo uma grande viagem literária.
Está implícita aqui uma profecia de que este Super-Camões iria tornar-se internacionalmente famoso depois de morrer, comandando a armada da literatura portuguesa ou mesmo da espiritualidade. E assim tem acontecido. Mas, como vemos, esta interpretação plena do poema é difícil fazer sem conhecimentos astrológicos e, especificamente, do céu do poeta.
Tanto o poema D. Fernando, Infante de Portugal como o do navegador «Fernão» traduzem os pontos mais cruciais da identidade astrológica de Fernando Pessoa definindo o seu percurso e propósito de vida. É descrito o seu Ascendente Escorpião, regido por um Marte artístico, literário, espiritual, sofrido e fechado, devido à sua configuração por Casa, Signo e ângulo, com um destaque especial para a conjunção com Urano.
Curiosamente, essa mesma conjunção de Marte e Urano na Casa 12 verifica-se também no horóscopo fundador da Batalha de S. Mamede. Aliás, por uma grande coincidência partilham também das posições de Júpiter na Casa 1, Vénus na Casa 8 e Mercúrio em Caranguejo.
Os dois horóscopos têm também um luminar a governar a Casa régia e posicionado na Casa da morte, pelo que o sincretismo de Mensagem é particularmente feliz. Esta sintonia poderá sugerir, eventualmente, que Portugal será também mais reconhecido depois de uma “morte” real ou simbólica ou de sofrer grandes crises, à semelhança do destino do poeta.
Contudo, embora Fernando Pessoa seja o «morto» que «comanda a armada» espiritual portuguesa, precisa que os capitães sobreviventes da mesma completem a obra, no terreno, fechando o ciclo e abrindo um novo mundo: o Quinto Império. Mas, para isso, é necessário que dominem o mesmo território mitológico de Urano, que são os céus.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 21 de Dezembro de 2021
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