
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Ulisses” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
ASTROLOGIA: O SOL
É aqui iniciada a segunda secção de «Brasão» sendo a quebra de estrutura indicação de entrarmos numa segunda ordem de interpretação. São descritos os arquétipos principais e luminosos – «Os Castelos»– tendo semelhanças com a Casa 1 ou poema de abertura, uma fortaleza de identidade, um «Campo» (Casa) que é quase um «Castelo» (Planeta).
Como mencionado explicitamente, em «sol que abre os céus», este primeiro poema refere-se ao Sol, o primeiro astro clássico na Astrologia, o mito de identidade e de heroísmo puro, o arquétipo maior. São várias as referências ao seu significado lato de dador de vida: «mito», «tudo», «brilhante», «Deus», «Vivo», «lenda», «vida», «fecundá-la».
A identificação de Ulisses num patamar sobrenatural e divino reforça a sua categorização como o Sol simbólico português. Como se sabe, Ulisses foi uma das personagens mais decisivas na Guerra de Troia narrada por Homero, na Ilíada, e a personagem central da Odisseia, que retrata a aventura do regresso à sua ilha, Ítaca.
Nessa aventura pelos mares ultrapassou diversas armadilhas tais como gigantes, o canto das sereias ou intempéries. Em analogia com o percurso dos Portugueses pelos oceanos, vencendo grandes obstáculos, mesmo sendo pequenos.
Ulisses é considerado um dos fundadores mitológicos de Lisboa por alguns autores romanos. Como herói e navegador, tem como principais qualidades a astúcia e a inteligência, tendo partido de si a ideia de criar o mítico Cavalo de Troia.
O poeta diz-nos que, mesmo tratando-se de uma lenda, faz parte do espírito e identidade portugueses. Aqui é também iniciado o ciclo de dezassete personagens descritas em «Brasão», que constituem exemplos do heroísmo luso.
A interpretação não terminará aqui, contudo. Quando se amplia a lente astrológica, ela apenas se iniciará. Porque o próprio horóscopo de Pessoa é introduzido e os sentidos múltiplos dos poemas. A morte é referida por diversas vezes: «corpo morto de Deus», «Sem existir nos bastou», «Por não ter vindo, foi vindo», «morre».
Como explicado anteriormente, o Sol de Pessoa está na Casa 8, da morte, e esse posicionamento liga-se, por exemplo, ao facto de ter perdido o pai cedo. Logo, este poema também será dirigido à sua figura solar.
O Sol representa o Eu e, por conseguinte, o poeta dá o primeiro sinal de que ele mesmo faz parte deste percurso épico, sinalizando subtilmente a sua presença. Nos poemas seguintes, progressivamente, assume-se como mais do que um narrador participante nesta obra, mas também ele um herói.
Por outro lado, este é o primeiro de um grupo de oito poemas – o oitavo a contar do fim – adequado para sinalizar a sua oitava Casa. E o terceiro de «Brasão» e de Mensagem, tendo o poeta o Sol no terceiro signo do Zodíaco, Gémeos.
Para além disso, esta secção começa com o algarismo 2 em numeração romana, II, que é idêntico à simbologia gráfica de Gémeos, arquétipo que tem a inteligência como uma das suas principais virtudes.
«Este que aqui aportou» e que «Por não ter vindo, foi vindo» representará além de Ulisses, o próprio Fernando Pessoa, que abdicou de ter vida própria e «gozá-la» para ser «um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade», como confessou nas suas cartas.
Deste modo, é lícito argumentar que o autor consegue sintonizar simultaneamente os três significados: explicar o que é o Sol num horóscopo (sentido universal), o Deus que fecunda a vida; qual o arquétipo solar português (sentido nacional), Ulisses, o mítico e ardiloso navegador; e o seu Sol pessoal, no terceiro Signo e na oitava Casa, uma área associada a perdas, sendo o poeta alguém que sofreu muito, mas tendo o dom da inteligência.
Nesta lógica, Pessoa indiretamente manifesta-se como uma espécie de Ulisses literário, esperto e engenhoso como se vê na sofisticada construção da sua obra. Podemos encarar até Mensagem como o Cavalo de Troia do seu Quinto Império, por ser uma obra astrológica, espiritual e universal disfarçada de poema épico nacional.
É legítimo afirmar que, tal como na Guerra de Troia, haverá uma espécie de polarização global na sociedade entre não crentes e crentes num plano divino. Atendendo ao paradigma científico vigente no início do séc. XXI, é comum associar-se espiritualidade às pessoas incultas.
Algo semelhante acontece com a Astrologia, normalmente arredada dos meios universitários, escolares e científicos, pela sua divulgação na forma mais popular. Ao criar uma obra visceralmente astrológica no pináculo da sua expressão como filósofo, intelectual e poeta, Fernando Pessoa posiciona-se como estratega e general do Espírito, para a posteridade.
Como chamar de inculta, a tão refinada personalidade ou catalogar a Astrologia como uma linguagem para mentes pobres, depois de tão elaborada arquitetura?
Mensagem já está hoje profundamente entranhada na cultura portuguesa e nos meios literários não podendo, de forma alguma, ser ignorada. Tal como não pode ser ignorado o seu conteúdo interno e mais essencial – Espiritualidade e Astrologia – no coração das escolas e universidades, como consequência.
Á espera de ser aberto e contaminar todo o meio envolvente, tal como os soldados que saíram de noite do grande cavalo de madeira, quando o adversário dormia. Por coincidência simbólica, Mensagem foi publicada em pleno mês de Sagitário, o Signo dos cavalos, providencialmente adequado para este Cavalo de Troia moderno.
Para além dos ditos significados, o poema Ulisses tem ainda 15 versos, quebrando com a estrutura anterior de 12 versos.
Tem uma métrica dominante heptassilábica (a redondilha maior), confirmando que não faz parte do grupo das Casas, mas de um novo agrupamento, remetendo-nos para a estrutura setenária composta pelos astros clássicos, onde se inclui o Sol, em primeira linha.
É composto por quintilhas, estrofes de 5 versos, o que é comum noutros poemas centrais de «Brasão», sendo este o número do novo Império, o Quinto.
A assinatura criativa do autor reforça-se, neste poema, pela beleza descritiva e sincretização de ideias. Ulisses, o herói mítico grego será também o Sol, os navegadores portugueses e Pessoa, poeta de múltiplos engenhos.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 20 de Dezembro de 2021
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