
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “O Quinto Império” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa– os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
ASTROLOGIA: TERRA / FUNDO-DO-CÉU
Neste poema, Pessoa retrata a condição das pessoas que se contentam com «o seu lar», com a sua segurança e sem uma fé espiritual, enquanto o tempo e as Eras passam. É constituído por 25 versos em redondilha maior, em 5 estrofes, tal como «Quinto» é o novo «Império».
Este segundo poema de «Os Símbolos» será dedicado ao Elemento Terra, que é o segundo na ordem zodiacal, e ao segundo ângulo do mapa astrológico, o Fundo-do-Céu, que é designado como ângulo de Terra, nos textos tradicionais. Estão excluídos os restantes Elementos, logo na primeira estrofe, uma vez que estão em «casa», na Terra, sem o «sonho» que é a imaginação da Água, sem o «erguer de asa» para voar no Ar e sem «rubra a brasa» do Fogo.
O contentamento com o disfrute material e com a segurança do lar é uma característica típica da Terra.
Recordamos que o próprio Pessoa não tem Elemento Terra no mapa e nunca teve uma casa própria, mesmo quando ganhou uma herança, tendo vivido em quartos algo precários.
O Fundo-do-Céu é igualmente a «raiz» do horóscopo e a «erma noite» por ser tecnicamente o Nadir e a meia-noite solar. É também o «lar», a «casa» e, em muitas vertentes tradicionais, representa o enterro ou fim da vida, isto é, a «sepultura».
São também referidos os «quatro» impérios, que se enquadram igualmente na Casa 4, iniciada por este ângulo. Os impérios são designações de poder, mas também de território, tal como esta Casa e este Ângulo.
A passagem do tempo, das eras e da idade é um atributo do Elemento «terra» que «será teatro» enquanto os tempos «passados», ou «eras» anteriores estão confinadas ao Fundo-do-Céu, que representa a ancestralidade, o passado e mesmo a geografia.
Deste modo, Pessoa descreve aparentemente a condição dos Portugueses, acomodados no seu conforto material e que não têm ambição espiritual. Todos os que assim procedam estão condenados à condição de mortalidade, por negarem a sua natureza divina.
Tal como enterrados no tempo estão os quatro Impérios anteriores ao Quinto, pois fazem parte do passado. Foram impérios focados na matéria e, por isso, não perduraram, ao contrário daquele que vai perdurar, por ser focado no Espírito.
Lembramos que a profecia do Quinto Império deriva da interpretação de um texto do profeta Daniel, no qual o Quinto Império é representado por uma pedra que destrói quatro impérios anteriores, representados por uma estátua.
Essa estátua tinha a cabeça em ouro, o peito e os braços em prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e os pés parte de ferro e parte de barro.
Ao destruir toda a matéria, vindo de cima e perdurando no tempo, o Quinto Império pode ser interpretado como um paradigma que transforme completamente a forma como lidamos com a matéria.
E, por conseguinte, também neste poema temos uma descrição lapidar e sincrética de conceitos: o Elemento Terra; o Fundo-do-Céu; e os Impérios da Matéria, por contraste com o Império do Espírito.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
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João Medeiros
Lisboa, 1 de Dezembro de 2021
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