Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “Infante D. Fernando” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça

A sua santa guerra.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça,

Às horas em que um frio vento passa

Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá

Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois venha o que vier, nunca será

Maior do que a minha alma.

ASTROLOGIA: MARTE

Estaremos na presença de um dos poemas mais importantes e, porventura, mais completos de Mensagem, em termos da semântica astrológica.

Foi também o primeiro a ser escrito e publicado, em 1913, com o título de Gládio. São usadas três quintilhas, um alerta para que fosse equiparado a poemas anteriores com quintilhas: o Sol-Ulisses e Mercúrio-D.Dinis.

É com alta probabilidade o poema que Pessoa dedicou ao planeta Marte, o astro que governou a sua vida ou destino, ou seja, o planeta regente do seu Ascendente Escorpião.

Assim, este D. Fernando é simultaneamente o infante que foi capturado em Tânger, torturado e morto e o próprio poeta Fernando, que viveu numa cela de Casa 12, a Casa tradicional das prisões, e onde tem o respetivo planeta.  

Marte é um planeta considerado desafiante na tradição astrológica, e daí também a sua introdução no agrupamento das chagas de Cristo, «As Quinas». As referências ao astro da guerra são notórias: «guerra», «gládio», «febre», «querer», «vibrar».

Pessoa refere também a «face», «fronte» e «olhar» precisamente porque o Ascendente (início da Casa 1) está associado ao rosto e ao olhar, sendo este astro o seu governante particular.

Diz ainda que «Sagrou-me seu (…) em desgraça / Ás horas em que um frio vento passa», muito possivelmente porque Marte está exilado num signo de Ar que é Balança. Ainda que esta seja uma «face calma», como é comum neste Signo que inicia o Outono e a descida de temperaturas.

Ser armado cavaleiro de Cristo implicaria também um grande sofrimento e desgraça, como aconteceu com o Infante Santo.

Acrescenta também «Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me/ A fronte com o olhar;» que pode ser legitimamente apontado como referência ao seu Sol em Gémeos, já que é o astro dourado no signo correspondente aos ombros e às mãos.

Este é o décimo segundo poema de «Brasão», e representa assim a sua Casa 12, e o oitavo a contar do fim, sendo Marte o regente natural do oitavo signo, que é Escorpião.

Como pormenor também curioso, o poema é composto por 15 versos e o poeta tem Marte no grau 15 de Balança, no seu mapa natal. A idade de Marte no sistema clássico de Ptolomeu são também os 15 anos que governam a fase de vida humana dos 41 aos 56 anos.

Pessoa está «cheio de Deus», com «febre de Além», vivendo a «santa guerra» na perfeita configuração e descrição de Marte na Casa 12: um guerreiro da área espiritual.

Por amplas razões, podemos argumentar que este é o poema de Fernando onde o poeta se afirma, descrevendo a sua identidade e missão ao leitor, em entrelinhas que se tornam mais claras com a linguagem astrológica.

Esta identificação entre os dois Fernandos é descrita por Eduardo Lourenço, no seu prefácio a Mensagem: «o seu destinatário ou referente ideal não era o Príncipe que os Portugueses chamam de Infante Santo, exemplo de fidelidade à sua pátria e arauto da Fé católica, mas o próprio Poeta, investido no seu papel messiânico e escolhido por Deus.»

Assim, verifica-se que o poeta continua a intercalar Casas com Planetas, seguindo a sequência clássica ao colocar Marte a seguir a Vénus.

Aqui, está interpretado o planeta Marte, como tema principal e universal. Secundariamente, há uma ligação à Casa 12, enfatizando o seu horóscopo, para além do Nacional.

Mas este astro está coincidentemente também na Casa 12 no mapa da «primeira tarde portuguesa», relativo à Batalha de S. Mamede, tornando o sincronismo ainda mais perfeito.

Pessoa coloca-se na condição de mártir, sacrificando-se em prol da pátria, isolando-se e estando exilado, tal como aconteceu com o infante com o mesmo nome.

Assim como o poeta se dedicou exaustivamente à grande causa nacional, D. Fernando preferiu ser sacrificado a que devolvessem Ceuta aos mouros. Foi torturado e pendurado pelos pés em praça pública.

Como aponta Miguel Real, num sentido mais global, «a figura do Infante Santo representa, na economia da Mensagem, todos os portugueses partidos para as terras descobertas, encontrando anonimamente a prisão, o estropiamento ou a morte.»

Este segundo poema de «As Quinas» está, pois, apadrinhado por Marte, o astro que na tradição é designado como o segundo maléfico. É também uma confissão da tortura que foi a vida de Pessoa, embora investido de uma missão espiritual superior.


Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros

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João Medeiros

Lisboa, 4 de Dezembro de 2021

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