
Neste artigo, fazemos a interpretação astrológica do poema “D. Sebastião” de Mensagem de Fernando Pessoa (extraída do livro A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem, de João Medeiros)
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
ASTROLOGIA: JÚPITER
Este é o primeiro poema dedicado a D. Sebastião e está atribuído ao número cinco, da quinta Quina e do Quinto Império. É também o quinto poema a contar do fim e o décimo quinto geral. Quebra com a ordem cronológica de «Brasão», já que todas as personagens que se seguem a D. Sebastião são anteriores ao seu nascimento.
A métrica é também diferente das anteriores, sugerindo uma quebra com o tipo de arquétipos apresentados imediatamente antes. Aparecem novamente as quintilhas, tal como nos poemas do Sol-Ulisses, Mercúrio-D.Dinis e Marte-D.Fernando.
Por toda a semântica e enquadramento, Fernando Pessoa descreve aqui o astro que se segue a Marte na sequência planetária – Júpiter – que é um «Louco», com «grandeza», confiando na «Sorte», já que «Não coube em mim minha certeza».
Júpiter é o maior planeta do sistema solar e, na Astrologia, representa a fé, a certeza, mas também a ingenuidade, a loucura e o excesso. Por simbolizar as grandes crenças é legítimo que Pessoa tenha atribuído um lugar especial a D. Sebastião, o mito do Quinto Império, a sua grande fé e “religião” do país.
Anacrónico, no seguimento da cronologia real, tal como este rei foi um dado estranho na História de Portugal, atendendo à investida surreal e despropositada porque, ainda por cima, não tinha descendentes, o que justificaria ainda menos o risco que correu.
Como referiu o poeta noutros textos: «Há só uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação – a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional.»
Qual se consideraria ser um mito já existente e profundamente enraizado na alma nacional? O Sebastianismo. Assim que cada português se deixasse «embebedar desse sonho» individualmente e conseguisse viver em si o mito redentor e transformativo, estaria reerguida a glória da nação.
Na Astrologia clássica, Júpiter é considerado o grande benéfico e o arquétipo salvador. Aqui, curiosamente, é colocado também na categoria de “chaga”, o que vai ao encontro da visão de alguns astrólogos modernos, como Robert Hand.
Este classifica Júpiter como grande problema, pela ingenuidade e ilusão que estimula, prometendo muito, mas cumprindo pouco. Mas, como foi analisado anteriormente, cada astro do panteão nacional representa equilibradamente três níveis de interpretação: o Universal, o Nacional e o Pessoal.
E, por isso, neste poema – além da descrição do planeta Júpiter universal e da figura nacional de D. Sebastião – Fernando Pessoa também descreverá o seu próprio planeta Júpiter. No seu caso, é muito importante, por estar colocado na Casa 1, a da identidade.
Sendo o único abaixo do horizonte, pode visualmente ter o mesmo peso que todos os outros planetas juntos. Contando do fim da série «As Quinas», este é também o primeiro poema.
No seu horóscopo, Júpiter está em Escorpião e governa a Casa 5 de onde se infere que os últimos versos «Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?» serão descrições escondidas do seu próprio astro. Recordamos que Escorpião é um signo de morte e de sexo.
É possível que a palavra «adiado» se refira à condição retrógrada e lenta de Júpiter na carta celeste do poeta podendo dizer-se, por isso, retardado e demorado.
Este poema representa, pois, o último e mais importante mártir, D. Sebastião, que na sua desastrosa, louca e impreparada campanha em Alcácer-Quibir permitiu, em simultâneo, a criação de uma crença messiânica em torno do seu regresso.
Esse regresso não é o retorno impossível de um rei insano, mas o regresso da alma portuguesa que empreendeu uma das maiores aventuras da história da humanidade, unindo o globo. Mais do que isso, é o mito da criação de um novo Império global unido pelo conhecimento, fraternidade e espiritualidade.
Nesse sentido, Júpiter representa a enorme convicção no retorno mítico de D. Sebastião que é a fundação do Quinto Império. Não fosse esse aparentemente absurdo sacrifício, não haveria na psique coletiva a hipótese mítica de realização de algo grandioso.
Pelo contrário, Portugal até poderia ser um país feliz, mas relativamente banal, sem um mistério superior que o pudesse galvanizar e transcender além da sua reduzida dimensão geográfica.
É esse também o papel de Júpiter nos mapas das pessoas que, por vezes em ilusões monumentais, as vai obrigando a acreditar em grandes sonhos que um dia se realizam. Não vale a pena viver sem arriscar ou sem sonhar em grande: este é o lema jupiteriano.
Fica implícita também a crença no além da morte ou mesmo na reencarnação: «onde o areal está/ Ficou meu ser que houve, não o que há.» Porque o regresso à vida não é só uma alegoria, mas algo muito concreto, quando lido espiritualmente.
Outro importante sentido deste poema é a declaração implícita e até autocrítica de que ele próprio, Fernando Pessoa, é também o D. Sebastião e o sumo-sacerdote do Quinto Império.
Na sua assumida loucura terá levado uma vida obsessiva e curta, sem realizações materiais ou afetivas, mas plena de significado espiritual e em sacrifício por um ideal maior.
Nesse aspeto, o repto para que outros tomem a sua «loucura» é também um pedido para que outros se apaixonem por esta demanda sagrada, mesmo correndo riscos e sendo igualmente vistos como loucos.
Melhor será esse caminho arriscado de despertar espiritual, do que viverem como mortos ou à mercê dos instintos animais.
Leitura extraída do Livro “A Hora de Pessoa – Astrologia da Mensagem” de João Medeiros
Compre já o seu livro AQUI
João Medeiros
Lisboa, 6 de Dezembro de 2021
Para saber mais sobre VÍDEOS: AQUI
Para saber mais sobre os nossos CURSOS: AQUI
Para saber mais sobre CONSULTAS: AQUI
Receba todas as nossas novidades, subscrevendo a nossa NEWSLETTER: AQUI





